Núbia (Bárbara Bello, 2025) se estica para fora de um limite; o filme é o efêmero, suspende o desejo do corpo para espaços distintos. E esse calor atravessa as paredes do quarto, esticando-se até Belo Horizonte, penetrando as ruas desertas do centro, se desprendendo das imagens e atravessando os pixels ruidosos da resolução digital.
Algumas construções cinematográficas do próprio curta-metragem buscam caracterizar, por meio de diferentes gestos, a forma do desejo que se espalha pelo filme e pela cidade. No entanto, é justamente nessa pluralidade de construções que o desejo se afirma como algo que escapa às imagens: o inalcançável torna-se seu fundamento principal, enquanto a experiência se sobrepõe à significação. A montagem propõe uma lupa que busca observar a genética das coisas, das imagens e do tesão. O quarto vermelho impõe, a priori, um espaço delimitado: o do píxel. As botas talvez sustentem o corpo justamente pela brutalidade do contraste entre sua rigidez e a nudez exposta, impedindo-o de evaporar no ritmo da masturbação e do suspense que se dilata junto à respiração. Esse fluxo abre a janela e sobrevoa o asfalto em um gesto de montagem.
Essa contínua construção sensorial consegue contagiar o espectador. O choque do som — a respiração forte, o gemido — com as imagens induz uma forma pulsante de assisti-las.
O caminho que o filme faz não é de impor uma situação estimulante (comum nas imagens de sexo explicito do pornô) mas de espelhar o estímulo sexual na forma. É impossível de se ignorar o caminho fugaz que as imagens e, principalmente, o som impõem. Ainda que contenha rastros de uma narrativa, o filme consegue induzir, sobretudo, a uma construção sem rigidez, ao abrir um espaço onde a eletricidade de um toque que não se limita a uma só personagem, mas se expande pela cidade.
Quando as imagens fogem das concentrações do corpo e alcançam as ruas, observando de cima um centro urbano, a rua vazia torna-se o lugar de vazão do tesão, e é nesse não-lugar que Núbia ergue sua forma. Na transitoriedade do centro, onde a interação mais marcante entre sujeito e espaço é a própria passagem, a madrugada introduz outra codificação. Sem o fluxo constante de pessoas e sem corpos que delimitem o deslocamento, o espaço se revela em sua ausência. Sem o sujeito para projetar identidade sobre ele, o centro se transforma em um lugar de vazão: um território para o desejo de conexão, para o gozo, para essa vontade inerente ao ser que escapa ao individual e se torna anônima, uma vontade de qualquer um.
A vazão do tesão é distorcida e projetada no filme. Uma inquietação de um orgasmo iminente que não tem para onde ir e escapa para as imagens, se expande no som, atravessa a projeção e persegue o espectador. Constrói e destrói. Em fuga, ganha novos contornos igualmente breves. Penso no plano da cidade à noite, onde as luzes voltam a acender com o escape dos gemidos, criando um corpo que respira, que ganha vida com o movimento, adquire escopo e se transforma no aglomerado de prédios — até vazar e escorrer para o próximo plano. Imponentemente em trânsito.
Nessa assimilação, o filme compõe não a apreensão do espaço do prazer, mas a demonstração de seu fluxo. Mediante uma sobreposição de elementos — gemidos, suspiros, ruas, prédios, imagens em baixa resolução, brechas da manhã seguinte, o encontro de duas pessoas, a música de Núbia Lafayette — forma-se uma colisão. Esse encontro cria um ritmo expansivo que, de plano a plano, procura um escape finito.
Esse escape ganha finitude na manhã, mas atravessa o espectador antes de seu fim. O que Bárbara Bello talvez crie com Núbia é um ensaio sobre o prazer, agarrando em seu discurso o caminho fugaz que o desejo precisa percorrer para atingir o gozo, deixando rastros que, mesmo breves, seguem vibrando para além da última imagem.