Puxa. Solta. Puxa. Solta. Ouvimos instruções. Alguém que geme. Desafinado e choroso, como quem gesta ou tenta colocar algo para fora de seu corpo. A cacofonia da dor ainda desconhecida se sobrepõe a uma imagem do céu. Uma corda atravessa o azul pacífico, tornando-se um ruído, um corpo estranho, uma ameaça e uma promessa do que podemos ver além do céu. O som de guitarra rasga a imagem e desloca o mundo para um quarto escuro e abafado. Latas e papéis amassados compõem um altar da precariedade na órbita de Anjo, protagonista de Feiura Comovente (2025), filme de estreia do diretor-ator Ultra Martini.
Em sua cama, agarrado a uma guitarra, Anjo recita um poema olhando para o teto, mesma posição que devia estar quando deixou uma brasa de cigarro decorar seu lençol. Ele fala sobre um viajante interplanetário que retorna à Terra e percebe que todos que conheceu estão em diferentes fases da vida: “Pedro sente o peso de ser jovem e velho ao mesmo tempo.” Em tom cômico e depreciativo que marca o monólogo inicial do filme, Anjo projeta, através da história de “Pedro Esquisitão”, que quer ser artista, o mesmo tempo quebrado que Halberstam chamou de “tempo queer”. Sendo o oposto do “tempo hétero” (ou tempo normativo), o tempo experienciado por corpos dissidentes é, também, dissidente. Por não se adequar aos moldes elitizados e cristãos de família, reprodutividade e sucesso, o corpo queer é visto como sem passado, presente e/ou futuro. Corpos que, despidos de espaço, forjam seu próprio tempo nas viagens interplanetárias do mundo comum. “Conhecemos bem sua angústia, Pedro.”
Pernas que correm em um chão de estrelas. Os tênis brancos que parecem flutuar em um espaço indefinido atravessam as palavras de Anjo sobre cruzar galáxias, vazios multidimensionais e horas que são décadas. Um céu revolto invade o altar de Anjo e os acordes graves de sua guitarra guiam trovões pelo seu quarto, anunciando suas palavras tempestuosas. Uma tesoura abre uma brecha em um tecido branco que vira uma máscara. Entre desfoques, uma parede branca depredada revela aos poucos suas rachaduras. A não linearidade das cenas, a hibridez das sobreposições de imagens e a disjunção entre o visual e sonoro esculpem a temporalidade queer na estrutura do filme. Essa temporalidade é aberta à falha: pula etapas pré-concebidas, acelera, retorna, improvisa, atrasa, adianta futuros incertos e ecoa as inquietações do personagem. Impressa na ligação inaudível com a mãe que ecoa o mesmo presságio de morte de uma cartomante, a chegada dos 30 é uma contagem regressiva para um apocalipse particular. O Anjo já habita estas ruínas.
Após falar tanto sobre conflito de pais e filhos das histórias gregas, ele atende a uma ligação de sua mãe. As palavras da mãe se materializam apenas através de legendas e a voz é omitida. O grave sonoro de uma tempestade distante, os planos com inclinações holandesas e as palavras da mãe dão à cena um tom ameaçador. Uma figura de balaclava branca, botas e roupa íntima, que tomei a liberdade de chamar de Fantasma, espia Anjo. O lugar, que parece uma dilatação das margens do quarto dele, tem um aspecto de calabouço. A presença de fantasma, a princípio, evoca a sensação de hipervigilância de uma prisão. Algo parece impedir Anjo de responder e o faz de refém. Mesmo assim, ao desligar a ligação, Anjo inicia uma serenata em portunhol para Fantasma. Salivando como um animal cansado. Luzes piscam no quarto e a tempestade se intensifica. Tosse, a voz falha, escapa. Devoto. É caótico, erótico, desajeitado, sensível. Até Fantasma enrola sua balaclava nos dedos como um cacho, excitada, antes de Anjo devorar sua carne por tentar fugir. Num diálogo de uma só voz, Anjo e Fantasma revelam-se um. Os olhos arregalados por dentro da balaclava. Visões do céu. O corpo vestido de branco. O piercing inflamado de Anjo. O sangue em suas mãos. Um órgão sangrento em sua boca. A sequência de imagens que se fundem após o canto lascivo de Anjo tensionam os limites entre prazer e dor desse ataque.
Após falar sobre seu passado, Anjo corre numa esteira enquanto a projeção da rua onde Fantasma corre se sobrepõe ao seu corpo. As camadas implicam um rastro de imagem. Fantasma persegue Anjo, que não sai do lugar. Algo nesse passado o faz refém. A imagem ecoa o chão de estrelas do início. A adrenalina escapa pelos poros do filme. O som estala como choques elétricos: luzes, zumbidos, acelerações, vibrações. Sons que Anjo poderia compartilhar com o Ícaro das lendas gregas, quando voou muito perto do sol para fugir do labirinto que seu pai criou. A fantasia do paraíso, o céu azul anunciado nos primeiros planos, finalmente chega, porém, como uma espécie de colapso nervoso.
Uma mão protegida por luvas higieniza a pele. Penas emolduram o quadro. Ganchos atravessam as costas de Anjo em uma dupla incisão. A corda e o céu retornam. A pele repuxa como se seios brotassem das costas, encenando um corpo que se refaz, que se multiplica, que se desidentifica. Os pés ficam em ponta e o corpo, suspenso. As imagens das cordas esticadas sobre o céu azul e choro não identificado retornam e se expandem. Os sons que remetem aos de um parto são de Anjo chorando para forjar suas asas. A imagem de seu corpo suspenso, flutuando num céu artificial, concretiza a sobrevivência de um Cristo transmoderno que não pretende disputar a santificação. “Eu posso e até quero ir pro inferno, mas nem por isso queria prover o céu para minha mãe.” Em Feiura Comovente, a maternidade, arte e modificação corporal se ligam pelo sacrifício ritualístico de Anjo. Ele diz que “A criação é algo violento”. As imagens molhadas de saliva, suor e sangue acrescentam: a criação é algo doloroso, prazeroso, profano e divino.