7º Corpo Crítico

O mundo dentro e fora da perda

A morte tende a nos pegar desprevenidos. Muitos tendem a sequer falar sobre o fim, seja por superstição ou por medo, e quando ele chega, não há como saber qual será a reação. Mãe do Ouro (Maick Hannder, 2024) embarca o espectador na jornada imediata  de quem é deixado para trás, pegos de surpresa com o fim, presos em um mundo de sensações que parecem afundar cada vez mais a natureza perniciosa do luto. Em uma noite escura, Tiana é confrontada com a morte prematura de sua irmã, na função de buscar seu sobrinho, que será de imediato introduzido a uma vida completamente nova.

Quando somos introduzidos a Tiana, um caminho cercado por um jardim verde e lustoso se abre no meio do plano. A luz da lua inexiste, fazendo com que toda a imagem seja banhada pelos feixes de lâmpadas frias do ambiente. O que mais preenche o momento é a paisagem sonora construída, com uma profundidade estonteante. Os latidos dos cachorros, o vozerio da vizinhança, os carros na rua, o vento. Escutamos um mundo completo, maior do que vemos, que rodeia Tiana enquanto ela caminha até o portão que procura. Tudo ao seu redor, inclusive aquilo que não é visto, parece imponente em comparação com a timidez com que a personagem se insere em cena.

A direção de Maick Hannder afoga a cena em uma escuridão em um mundo que está se fechando sob as personagens. O luto cobre em sobriedade a ambientação dada ao filme. Enquanto Tiana busca seu sobrinho, agora órfão, a imagem se fecha em um quadro na parede, retratando uma casa rural antiga, com todo seu bucolismo típico do interior mineiro. Um momento do passado capturado em tinta a óleo. Com esse momento estático, que ignora o que acontece ao redor, ouvimos apenas a movimentação de personagens que, às vezes, passam rapidamente na frente do quadro. Aqui vemos um mundo que não existe mais, rodeado pelo frenesi da realidade nova de uma família esfacelada pelo luto.

Em um momento seguinte, Tiana conversa com outra personagem em um carro, enquanto seu sobrinho dorme no banco de trás. Ela leva o garoto para sua nova casa, enquanto rememora um momento do passado em que sua irmã achou que tinha encontrado ouro no terreno de casa. É um momento marcado por uma forte sensação de nostalgia e melancolia. A escuridão da noite, como já estabelecido, reforça o peso do luto. Mas, há na sequência um aspecto diferente: o movimento. Aqui o luto não dispõe de sua faceta imobilizadora. O carro não para em momento algum e, apesar da escuridão da noite sem lua, o rosto de Tiana é iluminado regularmente pelos feixes de luz amarelada dos postes na estrada. Enquanto ela conta a história do passado, ela se movimenta para um futuro que, por mais incerto que seja, ainda consegue vislumbrar momentos de clareza, mesmo que breves.

O uso da luz, ou melhor, da ausência de luz (pelo menos na maior parte do filme), exacerba a profundidade de sentimentos acarretados por quem está enlutado. É difícil, quase impossível, enxergar o que está ao redor. O que está em frente é incerto, amedrontador e, provavelmente, doloroso. Há, em momentos esparsos, feixes de claridade que iluminam algo. O que resta é lidar com quem está ao lado, ou com si mesmo. Tiana o faz através das memórias. Suas falas, que preenchem o silêncio, rememoram sua irmã e angustiam o futuro. É assim que ela decide lidar com a escuridão. Seu sobrinho permanece em silêncio, observando com cautela a nova realidade que lhe foi imposta. É assim que ele decide lidar com a escuridão. Ambos encarando o mesmo mundo novo e inevitável.

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