É impossível pensar o corpo por apenas um parâmetro e esperar que o entenda por inteiro, que sua imagem está completa. Nunca está. Jamais estará. Os bons filmes são justamente aqueles que não buscam a totalidade do corpo, eles não afirmam ao corpo uma condição estática. Buscam encontrar nos gestos do corpo, em suas minúcias, em seus prazeres e dores, uma pequena fração do que seria sua totalidade. Quando falo de filmes que não buscam a totalidade, entendo que eles vão em direção oposta a filmes que utilizam os corpos como afirmação de uma ideia. São filmes que encontram no corpo suas ideias e que, ao investigar uma fração de sua totalidade, encontram sua estética.
Em Núbia (2025), de Barbara Bello, existe ao longo de todo o filme um olhar que compreende o corpo nu como um ruído. É um corpo que se apresenta nas sombras de um quarto vermelho, quase completamente despido, senão por um coturno. Esse coturno adiciona uma camada à esse corpo, que não está inteiramente nu mas, de certa forma, armado. Em certo momento, essa personagem coloca os pés de frente à câmera, confrontando, quase atacando o espectador. Está vulnerável por sua nudez, mas também é imponente por seu comportamento e presença.
Núbia abre com o corpo de uma mulher estendido numa cama estirado como se estivesse morto. Aos poucos ele se move e senta-se na cama. Outras mãos o tocam. Ele também se toca de frente para a câmera. A imagem é carregada de uma certa opacidade, a escuridão do ambiente e a imagem em baixa qualidade. O interesse do filme, portanto, está em observar como corpo se expressa nas sombras. ainda que essa observação seja dificultada ao espectador. O filme nos impede de enxergar essa cena por completo, não apenas por sua opacidade, mas pela escolha de manter a câmera em um ângulo fixo: vemos parcialmente a cama, ora o corpo da mulher se move para longe da câmera, ora para a beirada, impedindo que o vejamos por completo. Além do ângulo fixo, outro elemento que nos impede de chegar à esse corpo é a cor: toda a luz que incide na cena é vermelha, o restante são sombras. Esse vermelho, aliado à baixa resolução da imagem, faz com que algumas texturas se confundam: partes do corpo e do ambiente se fundem ao olhar pois a cor domina a imagem, dificultando a diferenciação entre a cama e o corpo.
Observar esse corpo se torna ainda mais complicado quando, após alguns minutos, a imagem se distancia e vira um pequeno quadro no centro da imagem. É o mesmo plano, mas agora envolta à cidade noturna. É como se a imagem, agora, estivesse engolida pelo urbano, aos poucos consumida. Torna-se um quadro exposto na imensidão de prédios. Esse momento do filme estabelece um ruído, um estranhamento causado por essa diferença do tamanho do quadro e por alojá-lo em um outro ambiente. A imagem se desloca, sai do ambiente interno e se funde ao externo. São duas imagens que se conectam pela escuridão, mas que se distinguem pelo seu espaço físico. O corpo nu sai de um ambiente fechado e desconhecido; agora ele é localizado na cidade, se revela como um fragmento integrado à ela.
Há, ainda nessa cena da projeção do corpo nu na cidade, um elemento de enfrentamento. O corpo nu tenta violentar a câmera com o coturno, avança com os pés em direção à imagem, ao espectador. E, nesse momento, a imagem é pausada. Uma sombra aparece em sua frente, revelando uma outra camada à essa cena: o enfrentamento do corpo é congelado, impedido por um outro espectador, um fantasma que abriga aquela imagem e invade a cena.
Essa operação em muito se assemelha com uma sequência de Mujeres (1985), dirigido por Narcisa Hirsch. Vemos em tela o corpo nu de um homem e, assim como em Núbia, esse corpo está em um local fechado e escuro. O plano contempla apenas o torso desse homem, o que nos faz enxergá-lo é a luz da projeção de outra imagem que incide nele. A imagem que está sendo projetada é de uma mulher andando na natureza. Ela está completamente vestida: blusa de frio, calças, bota e toca compõem sua imagem. Existe uma discrepância entre expor esse corpo masculinoeo reflexo de uma imagem feminina completamente vestida. Um corpo que se expõe à luz para revelar e outro que está inteiramente coberto. Um corpo que, quando aberto, revela aquilo que, de certa forma, tenta aprisionar.
Ainda que Mujeres apresente uma cena tematicamente diferente de Núbia, a conexão da imagem projetada, de um gesto de imposição do plano em cima do ambiente (Núbia) e do corpo (Mujeres). As duas imagens demonstram a necessidade de integração entre os dois objetos (a cidade e o corpo nu; o corpo masculino e o feminino) e determina também que existe um ruído nesse encontro. Esse choque produz o ruído de um pertencimento alienígena, de um corpo que se constitui em superfície projetável. A nudez muda de figura, a mulher não mais está nua, quem está é o homem.
O que une Mujeres e Núbia é o confronto.
Mujeres não tem a mesma imagem carregada de distorções como em Núbia, nem o confronto da personagem que atinge a câmera e o espectador com sua expressividade, mas ele confronta através da delicadeza. São muitas imagens quase banais do cotidiano das mulheres, de rostos, de caminhadas. E quando vemos homens, eles estão envergonhados, tampando os rostos. É a mesma ideia de envergonhar, de demonstrar aquilo que fere ao olhar dos poderes dominantes; expressar a sua corporalidade como forma de fuga.