7º Corpo Crítico

Imergir para respirar

Figuras misteriosas em preto e branco dançam na tela ao som de intensos ritmos musicais de matriz africana, impactando o público e preenchendo pungentemente o vazio escuro da sala de cinema. Em seguida, são entrecortadas por registros de jornais denunciando práticas de intolerância religiosa fundadas no racismo. As imagens se alternam e se repetem, o som continua. Através do conflito entre perseguição e registros da tradição preta, um movimento de resistência cultural é firmado. Abrindo com “Sombras de Macumba na Luz da Memória” e “Escorpiônikas – Contramanifesto”, a cacofonia ritualística estabelece o tom da mostra Filme-Feitiço, exibida no dia 07 de novembro, sexta-feira, como parte do 27º FestCurtasBH. Vemos uma mulher trans fazendo uma performance rasgando bandeiras com um punhal enfiado no seu cu. São filmes que não buscam sutileza nem tentam conquistar respeito pela via da delicadeza. Em imagens de arquivo, vemos comunidades marginais de profissionais do sexo sendo criadas e políticas sendo questionadas. Corpos sendo insubmissos. São relatos pessoais combinados com manifestações de revolução, sexual, racial e de gênero, confrontando agressivamente o sistema que cerceia seu direito à identidade para fazer sua voz ser ouvida. Depois, escutamos a narração de outra mulher trans saindo de uma festa em “Rezbotanik”, com imagens mais suaves: um jardim botânico em um dia ensolarado, palmeiras estrangeiras e frutos exóticos. Vemos uma natureza que existe e resiste no centro do concreto urbano. Pensamentos rápidos, lembranças de amizades entrecortadas por ressentimentos políticos. O filme nos seduz com paisagens pacíficas, nos ilude com o verde, mas os conflitos ainda não acabaram. A narradora discursa sobre a opressão que sofre por sua identidade de gênero, sufocando as imagens serenas com a batalha constante que a cansa. A necessidade de revolta se mantém pulsante. A violência relatada se acumula, não parece ter fim. O mundo se mostra claustrofóbico. É insuportável. Então…

Silêncio.

Nos vemos em um refúgio natural, com borrifadores umidificando o que parece ser uma estufa, uma espécie de reserva natural. Sons de insetos ao fundo, o barulho da água em movimento. Aqui não há trilha sonora. Não vemos mais humanos, somente a natureza. “Nido de Cocodrilo” nos recebe como um respiro vertiginoso, uma calmaria inquietante depois dos sons agressivos e dos confrontos anunciados nos filmes anteriores. Uma narradora oculta descreve sua relação com um homem, naquele mesmo ambiente, e reflete sobre o espaço: “[…] o cheiro das plantas e da umidade me causavam uma sensação muito incômoda de estar em casa”. Nessa estufa não existem construtos sociais, o natural se adapta e se assemelha ao essencial, ao intrínseco de si. Vemos um crocodilo na água, estático. Uma borboleta voa sem destino, sem pressa. O que se instaura é uma experiência sensorial que se assemelha a uma meditação guiada, apresentando sons e imagens de uma solitude mística, ancestral à civilização em atrito, que nos encobrem, nos colocam em transe. Observamos essa narradora se manifestando através de filmagens do entorno, sendo uma só em sincronia com aquele ambiente. Seu desejo para com o homem mencionado é natural e livre, essencialmente animalesco, sem ser violento. Nessa estufa, a resistência adquire outro formato, mais espiritual e menos discursivo. Vemos escamas, folhagens, troncos de diferentes espessuras. As imagens não apresentam uma sequência lógica de sucessão. Observamos a reserva enquanto nos tornamos apenas mais uma parte de sua fauna e flora. Ao final dos seus longos 9 minutos, e ao longo de todo o curta “Crua+Porosa”, que lhe sucedeu, eu não me sentia capaz de fazer nada mais além de respirar. Não refletir, repensar ou resistir. Somente respirar. Ser.

Outra forma de insubmissão.

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