Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.
É um trecho do texto A Noite, do escritor Eduardo Galeano. Desde o momento em que saí do cinema, profundamente movido por Mujeres (1985), esse texto ecoava, pois sintetizava em palavras o que aquelas imagens tinham me provocado. O incômodo que sentia era algo como a incompreensão perante o que Hirsch mostra: homens livres e mulheres te encaram.
O feminino em Mujeres é reflexo. No primeiro plano, vemos uma figura caminhando livremente pela planície de uma natureza aparentemente intocada. Em sequência, esses planos são projetados no torso nu de um homem. A tela-homem é guiada pelos movimentos dessa personagem. A lógica de controle é quebrada quando o rosto de Narcisa Hirsch é refletido num lago. Hirsch remonta o mito de Narciso: a fixação pela imagem que é reflexo não pode ser alcançada.
A câmera de Narcisa assume um papel de comparativo. Um homem protege seu rosto com uma máscara, risonho, encara a câmera ao esquiar sobre um cemitério ou uma montanha. As mulheres aparecem em plural. Encaram a câmera ou a si mesmas. Ao encarar a si mesma, o reflexo de Narcisa encara a câmera. O dispositivo registra uma opacidade dessas mulheres quando as olha de volta. Esvazia o feminino da pluralidade de ações. Elas apenas encaram a câmera.
Um gesto parecido ocorre em A Paixão de Joana D’Arc (1928), presente em trechos de Mujeres. A tortura é anunciada no momento em que a personagem encara de volta seus acusadores, respondendo que apesar de presa, não está sozinha. Condenada à sala de tortura, olha para a luz da janela que está sendo refletida no chão. Joana irá perder o direito à janela e à luz.
Enquanto no filme de 1928, Carl Theodor Dreyer trabalha a mulher sempre olhando para cima, para seus algozes; Hirsch provoca o oposto. As mulheres olham frontalmente para o algoz, aqui representados pela câmera. Em A Paixão de Joana D’Arc, a personagem raramente não está em evidência, dita todos os movimentos do filme. Dreyer aposta em um regime de transparência para que nada além dela, e seu olhar, possa sugar a atenção da câmera. Narcisa busca uma opacidade. O dispositivo busca um panorama dessas mulheres, não sendo guiado conscientemente por esse feminino.
Apesar da abordagem de opacidade, existe em Mujeres um retrato transparente do patriarcado; o homem assiste TV enquanto a mulher chora no quarto, o homem que ri ao sobrevoar por onde quer. As personagens encaram diretamente esse dispositivo, como se aquele mundo dentro da tela nada mais fosse que um reflexo, um reflexo que busca sua semelhança no mundo real, buscar quem Joana D’Arc se refere quando diz que sozinha não vai ficar.