Na tela, a câmera caminha, suavemente, de uma sombra escura para uma luz avermelhada, que aos poucos toma conta do plano. A sombra retorna e, dismórfica, apresenta-se lateralmente cercada pelo vermelho, imiscuindo-se a ele em uma espécie de vibração. Algum tempo de repouso dos olhos sobre a abstração, sobre aquilo que à princípio não representa nem aciona qualquer coisa de familiar ou significante, produz uma mirada que inventa imagens sobre a imagem. O plano inicial de Come Out, de Narcisa Hirsch, escancara os limites da simbolização, um ponto do qual a linguagem é incapaz de dar conta. Diante do incômodo produzido pela impossibilidade de enodar imagem e simbólico, convoca uma busca endereçada duplamente: à tela e à memória. Diante da tela, uma tentativa de encontrar algum elemento ou pista que solucione a abstração, que dê significado a ela e, assim, a desmanche. Nos primeiros segundos, é esse o esforço que predomina, na possibilidade de que seja uma questão de tempo até que se identifique algo de concreto ali, uma espécie de delay na apreensão da imagem. A ele junta-se outro: um escrutínio da memória, dos arquivos imaginários, em uma tentativa de encontrar algo de compatível, algum tipo de resposta – que venha de mim, ou que venha dela.
A impermanência do que se mostra no plano, no dismorfismo da sombra que se altera, ora predominando à luz, ora não, dificulta que esses gestos obtenham sucesso, ou possam se encerrar em alguma conclusão. Quando parecem estar perto disso, a imagem se transforma suavemente, ao interromper ou desfazer aquilo que estava prestes a se formar. De repente, ao redor da sombra centralizada, restam duas manchas de luz avermelhadas, arredondadas e simetricamente opostas. Ali, quase vi dois ovários. E dos ovários quase vi um útero – agora ele mesmo representado pela parte escura do plano. Uma alucinação necessária para que houvesse um apaziguamento visual capaz de fazer ouvir e entender algo da frase que se repetia, até então esvaziada de forma e significado: come out and show then.
Se minha atenção antes se direcionava inteiramente a uma tentativa de desvendar a imagem, enquanto o som pairava ao fundo, em segundo plano, quase que de modo independente, apartado da tela, sua significação passou a ser condicionada à leitura que foi possível produzir dela, em uma semi-confirmação temporária: há algo possível de sair e ser mostrado de dentro de um útero; ou é um útero por si só a parte de um sujeito a quem se convida a algum tipo saída de dentro de uma certa estrutura social, a um desaprisionamento e à possibilidade de mostrar-se ao mundo em formas que subvertam determinada ordem.
A repetição incessante que constitui o som, obrigando a uma espécie de permanência nele, produz um movimento contrário àquilo que o tempo de olhar para a imagem aciona: enquanto meus olhos inventam formas, forjando significações, em uma tentativa de preencher o vazio da abstração, a cada repetição sonora os significantes que constituem esse som parecem se desmanchar. Se o gesto de delongar o olhar por um certo tempo sobre uma abstração aciona a produção de contornos e formas visuais familiares, em uma tentativa de preenchimento, a repetição de uma frase ou palavra as desmancha gradualmente, esvaziando-as de significado e produzindo algum tipo de estranhamento irreversível.
A câmera se reacomoda e passa a mostrar, bem contornada, a concretude de um objeto desconhecido, preto e de forma própria, que em algo se assemelha a um aparato bélico e tecnológico. Algum tipo de nave que funciona autonomamente, correndo veloz por sobre uma superfície escura, como um ovni. O som é agora totalmente indistinguível e incessante – uma abstração sonora –, e sua origem, misteriosa, parece remeter a algo que está fora da natureza, a outro planeta, por onde corre o aparato mostrado no plano.
O distanciamento gradual da câmera aos poucos significa a imagem, o objeto que constituiu todos os planos, e ele mesmo passa a significar o som. O aparato é a agulha de um tocador de discos. A superfície preta é o próprio disco, e o som repetido é emitido por ele. Novos elementos são incrementados ao plano, e esses objetos passam a estar situados em um espaço, em um ambiente cotidiano qualquer. Guarda ainda novos objetos que, mesmo que não plenamente distinguíveis, não despertam qualquer esforço de entendimento, justamente por se incorporarem a uma cena algo familiar, situando-se dentro de um universo simbólico e imagético conhecido.
O movimento executado revela algo de muito menor complexidade do que faria supor quando em um excesso de proximidade da câmera com esse objeto, um ambiente que poderia estar incorporado à sala de estar de uma casa qualquer. Algo de muito menor complexidade em relação ao tamanho do esforço antes necessário para produzir qualquer tipo de entendimento sobre imagem e som durante quase todo o tempo do filme, em uma busca que mirava por encontrar uma decifração nada banal. O distanciamento soluciona em segundos, ao menos em parte, o enigma instaurado por longuíssimos minutos.